O que você busca no CrossFit? Agora me diz a verdade...

 Todos os dias você tem a chance de mudar a vida de alguém. O que você tem feito?

Todos os dias você tem a chance de mudar a vida de alguém. O que você tem feito?

Em 4 de fevereiro de 2014, a participante do The Biggest Loser, Rachel Frederickson, subiu ao palco do final da série, para o choque de todos que assistiram ao programa. Ela passou uma garota obesa com 130 kgs, para uma pessoa quase esquelética com 48 kgs.

Seu rosto estava sugado e seus braços pareciam anoréxicos. A reação do público foi assustadora. Sua perda de peso foi chamada de "chocante" por todos. O julgamento em sua pessoa foi enorme - de repetidas fotos no Facebook com seu antes e depois, aos tweets envergonhando-a por se torturar apenas para ganhar um concurso, culpando o show, a competição, os treinadores, e a própria premissa da perda de peso drástica.

Rachel era julgada de qualquer maneira - muito gorda ou muito magra. Mesmo tendo vencido o The Biggest Loser, ela não venceu de verdade. A realidade é que “todos” esperam as primeiras fotos de ganho de peso para que elas - ou melhor, nós - possamos julgá-la novamente.

Ninguém sabe o que realmente levou Rachel ao ponto de ter ganho tanto peso para começar. Claramente, ela tem seus problemas com a comida, e espero que os nutricionistas alinhados com o programa tenham sido capazes de armá-la com as ferramentas para um relacionamento saudável com a comida. No entanto, uma relação doentia com a comida geralmente é um sintoma de uma questão mais profunda. Eu também espero sinceramente que, mesmo em meio ao treinamento compulsivo que os competidores fazem no programa, eles tenham um modelo de como treinar sozinho - de forma adequada e segura. Porém, com base na quantidade de ganho de peso pós-show que os competidores experimentam, minhas esperanças não são altas…

Participante do The Biggest Loser que perdeu 70 kilos.

QUEM SOMOS NÓS PARA JULGAR?

Todos nós temos nossos demônios. Ninguém de nós tem o direito de julgar o próximo. A comida de um homem é a heroína de outro homem. Cada pessoa carrega consigo as experiências cumulativas de uma vida de bem, mal, dor, rejeição, amor, lágrimas, felicidade, esmagamento da alma, paz e tormento. Todos nós nos medicamos de alguma forma, seja buscando a dopamina das primeiras mordidas de comida ou a “onda” que vem de um PR de snatch postado em seu Instagram. Muitos de nós, eu ouso dizer que a maioria de nós, entrou no CrossFit por causa de algum demônio com o qual estávamos lidando na época. Tudo o que fazemos e todo pensamento que temos após isso é colorido pela história que foi criada por nossa experiência de vida e esquecemos ou não falamos sobre o real motivo pelo qual entramos na CFP9.

A verdade é que estamos todos perseguindo alguma coisa. Seja qual for o buraco que foi feito em nossa psique quando crianças, procuramos de alguma forma preencher com aprovação. Essa aprovação vem em uma infinidade de formas, e para Rachel, parece que a comida foi apenas substituída pela aprovação que ela poderia obter de outras vitórias. Eu quase posso ouvir os pensamentos em sua cabeça enquanto ela pesava sua comida nos últimos dois dias antes da final visualizando o estrondoso aplauso e confetes caindo em sua vitória, ela seria reconhecida. Muitos de nós conhecemos esse desejo - ele é o que nos mantém em movimento em alguns de nossos WODs quando sabemos a dor de terminar mais rápido, mas ignoramos a sensação pois estamos prestes a ganhar de nosso amigo. Não é sempre saudável…

EXPLORAÇÃO x SUCESSO DE LONGO PRAZO

Enquanto escrevo isso, o programa ACUMULADORES está passando na tv. O que me fascina sobre esse show é que eles sempre abordam não apenas a bagunça da casa, mas também a bagunça por “baixo do ser.” A primeira pessoa na porta é o psiquiatra. Antes de jogar fora um bicho de pelúcia ou um pedaço de pão mofado, o psiquiatra tenta descobrir os problemas que levaram o colecionador ao primeiro lugar. Então, e só então, eles levam o lixo e limpam a casa. E a taxa de sucesso a longo prazo parece ser bastante alta, enquanto no The Biggest Loser vemos o contrário!

 Hoje em dia, Rachel é uma das poucas participantes do show de TV que não recuperaram quase todo peso de volta.

Hoje em dia, Rachel é uma das poucas participantes do show de TV que não recuperaram quase todo peso de volta.

MAS O QUE ISSO TEM A VER COM CROSSFIT?

Como isso está relacionado ao CrossFit? Podemos, como treinadores do CrossFit, descobrir a bagunça por baixo dos clientes que atravessam a porta? Na verdade nem sempre. A grande maioria de nós não é psiquiatra nem qualificado para tentar trabalhar com nossos clientes dessa maneira. Mas como a jornada de Rachel Frederickson para a perda de peso teria sido diferente se ela tivesse entrado na CFP9? E se ela tivesse decidido que gostaria de passar o cuidado sobre sua saúde para nós e não tivesse feito o teste para o The Biggest Loser?

Cada um de nós precisa estar preparado para responder a essa pergunta, porque assim como Rachel, existem milhares de outros clientes que entram em nosso box todos os anos. Alguns com excesso de peso, alguns com distúrbios alimentares, alguns com problemas de auto-estima, alguns com histórias que nunca saberemos. Muitos boxes focam em enviar atletas para competições e lutam para importarem atletas para que sua equipe seja cada vez mais competitiva. Mas não devemos ficar ainda mais animados quando alguém que está fora de forma, :doente”, com excesso de peso, fraco ou em recuperação começa a fazer parte de nossa comunidade? Neste momento temos a chance de causar um impacto real na vida, na saúde e na forma física de alguém. É sobre isso que este movimento deveria ser. Não é o esporte apenas.

Então, se Rachel Frederickson entrasse na CFP9, a primeira coisa que eu faria seria apresentá-la a algumas das mulheres que representam força e saúde. Mulheres que demonstram um físico bruto e a habilidade combinada com abordagens altamente realistas e saudáveis para a alimentação e imagem corporal - enquanto treinam intensamente 1 hora por dia sem precisar de 3 horas na academia. Depois, convidaria Rachel a dar uma olhada em uma sala cheia de homens e mulheres que treinam não para as competições, nem para alta performance, mas para uma vida inteira de saúde e boa forma. Eu a convidaria para ouvir as conversas constantes sobre nutrição acontecendo ao nosso redor. Conversas de pessoas que sabem o que é comer “limpo”, testam receitas e encontraram sucesso em consumir a quantidade certa de nutrientes para abastecer seus corpos. Pessoas que alcançaram o equilíbrio na vida como um todo.

Rachel então participaria das aulas com todos os outros, não faria uma “planilha especial” ou nada to tipo. Veria pessoas que vão ao seu limite, mas nunca gritam ou humilham os outros. Pessoas que reúnem-se para um objetivo comum de saúde a longo prazo, em vez de buscarem um retorno rápido. Ela seria muito encorajada por pessoas que ao acabar seu treino iriam ao seu lado para ajudá-la a terminar as repetições.

Uma “Rachel Frederickson” vai entrar em seu box esta semana. Como treinadores, proprietários e atletas, não precisamos descobrir a confusão por baixo de cada pessoa que entra em nosso box, isso só vai acontecer se regarmos o jardim. Ao invés disso, devemos apenas ver com atenção cada ser humano que está ao seu lado, lembrar que todos nós temos nossa história. Isso pode nos permitir trazer essa nova pessoa para nossa comunidade e fazer o que fazemos de melhor - fornecer as ferramentas não apenas por 30 dias, mas para a mudança de hábitos em toda sua vida.

*texto baseado no artigo da Breaking Muscle.